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Caixa Preta
Sessão Maldita: Cannibal Holocaust

Cannibal Holocaust (idem/80) Direção: Ruggero Deodato • com: Francesca Ciardi (Faye Daniels), Gabriel Yorke (Alan Yates), Perry Pirkanen (Jack Anders), etc.
Na sociedade moderna, a imagem tem os poderes de um grande Deus. Da propaganda nazista aos reality shows, a mídia visual vem cumprindo o papel de criar uma nova realidade ainda que, por definição, não possa existir mais do que apenas uma realidade. Se houver outra(s), obviamente estaremos tratando de ficção. Na prática, porém, a humanidade testemunha uma mudança em sua percepção de mundo, onde o olhar de um documentarista, cineasta ou cinegrafista de TV, constrói para ela a "realidade".
Em “Mera Coincidência” (Wag the Dog), de Barry Levinson, uma guerra é produzida em estúdio à base de manipulação visual e com objetivos eleitoreiros. Longe das telas, a Guerra do Golfo, essa real, também fez uso de imagens – esverdeadas, distorcidas e borradas – para transmitir sua mensagem ao Ocidente. Ao vivo e via satélite. Mais do que nunca, a acuidade das imagens a que somos expostos é tema de discussão. O recém-laureado em Cannes “Farenheit 9/11”, de Michael Moore, consagrou o uso da linguagem visual para montar uma história em que a realidade também faz uso de estruturas narrativas. Os mais céticos ou materialistas chamariam isso de ficção.
É nesse terreno pantanoso que se situa “Cannibal Holocaust”, filme maldito do italiano Ruggero Deodato, exibido ontem num projeto de Carlos Reichenbach em parceria com o CineSesc. A película é profética quanto ao poder da imagem em embaralhar (falsificar?) a noção estabelecida de realidade. O filme funciona como um jogo macabro de metalinguagem que testa e confunde a percepção do espectador.
Resumo da trama: quatro documentaristas norteamericanos se embrenham na Amazônia para registrar imagens de um cinturão batizado de “inferno verde” e dos povos que ali habitam. Até então, nenhuma outra equipe de filmagem havia voltado do inferno para contar a história. Dois meses após a incursão no mato, não há notícias sobre os quatro ianques. O antropólogo Harold Monroe (Robert Kerman) é mandado de Nova York para os confins da América do Sul em busca de notícias sobre seus compatriotas. Ele refaz o caminho do grupo pela intrincada floresta amazônica e, depois de passar por todo tipo de apuro, encontra enfim os restos mortais da equipe e alguns rolos de filme. De volta pra casa e a pedido de um canal de TV, assiste ao material captado pelos documentaristas no inferno verde.
Antecipando um conceito que quase 20 anos depois seria reaproveitado pelos então novatos Eduardo Sánchez e Daniel Myrick em “A Bruxa de Blair”, Deodato dedica praticamente um terço do filme à exibição do relato visual dos quatro gringos pela Amazônia, como material bruto e parcialmente sonorizado. O que Herzog apenas insinuou no clássico “Fitzcarraldo”, e que permaneceu em suspense na floresta de Blair, é escancarado em “Cannibal Holocaust”: cenas verídicas de matança de animais e outras – muitíssimo bem emuladas - de estupro, empalamento e antropofagia. O valor de choque do filme de Deodato, muito mais do que suscitar alguma reflexão filosófica sobre o homem civilizado – mesmo porque na trama isso não se sustenta -, é justamente o questionamento sobre o poder da imagem.
Em tempos de guerra (outra vez...), causa mal estar a familiaridade entre a cena de estupro de uma índia pelos brancos em “Cannibal Holocaust” e o estupro verídico de iraquianas por soldados americanos. É a ficção que se apropria da realidade que parece com ficção…
Ironicamente, parte da satanização da equipe de filmagem em “Cannibal Holocaust” (desculpa moral para que recebam mais tarde a devida punição) é mostrada através de uma das poucas imagens não-ficcionais de todo o filme. O documentário exibido para o doutor Monroe, e que teria sido forjado pela mesma equipe de filmagem na África, é de fato real. Trata-se de “The Last Road to Hell”, um registro de bárbaras execuções ocorridas em Uganda. A realidade é mostrada como farsa dentro da ficção.
Com os sentidos complemente alterados, o espectador já não sabe – ou prefere não saber - até que ponto Ruggero Deodato também fabricou imagens para seu filme demente. As cenas da índia empalada e o ritual do parto são particularmente perturbadoras e intrigantes. Os sacrifícios de animais – como uma tartaruga marinha e um macaco -, esses sim, são reais. O modus operandi de Deodato seria então muito diferente daquele de seus infames personagens? Vale tudo por uma imagem?
O filme termina com os executivos de TV ordenando que o material encontrado na floresta seja incinerado e isso diz muita coisa: censores de 20 países proibiriam também a exibição de "Cannibal Holocaust".
Seja pelo exercício metalinguístico, pela ousada estrutura narrativa ou mesmo por suas louváveis qualidades técnicas (score musical belíssimo e imagens absolutamente impactantes), “Cannibal Holocaust” merece sair com urgência do limbo reservado aos malditos.

Escrito por Mr Eddy às 18h39
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